v. 10 n. 01 (2017): Revista Musica e Cultura 2017/01

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Nesta décima edição de Música e Cultura, não poderíamos deixar de apontar os graves acontecimentos nas áreas política e econômica que acometeram o Brasil desde o número anterior da revista. Os impactos negativos da ruptura institucional e das reformas econômicas exigidas pelo capital transnacional se fizeram sentir imediatamente no campo de atuação da Etnomusicologia no país. Tais impactos abrangeram desde cortes de verbas das Universidades públicas e órgãos de fomento à pesquisa e pós-graduação, até a perda de direitos, taxa de desemprego recorde e piora geral das condições de vida da população mais ampla, especialmente os setores mais marginalizados, aos quais a Etnomusicologia feita no Brasil tem dedicado atenção especial.
Neste cenário, entendemos que cada vez mais urgente é a realização de pesquisas etnomusicológicas, na busca de compreensão e transformação ativa da realidade social. É, portanto, com grande satisfação que apresentamos mais uma seleção de trabalhos comprometidos com o aprofundamento teórico e com a atuação dedicada no plano concreto. Atuação esta muitas vezes fundada na ideia de participação e colaboração com as populações envolvidas, tornadas sujeitos da pesquisa.
Rita de Cácia Oenning da Silva, neste sentido, analisa a autoexpressão de crianças artistas da periferia do Recife, nos termos do que elas denominam como “cultura de nossa periferia”. Usando o hip hop em música, dança e letras, além de ferramentas audiovisuais, elas realizam uma crítica ativa sobre as narrativas estigmatizantes da mídia, ao mesmo tempo em que constroem suas próprias identidades por meio da performance. Luana Zambiazzi dos Santos também se volta para o universo das periferias urbanas, na cidade de São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre (RS). Aqui, o rap também participa na construção ativa de identidades e pertencimentos, como forma de lidar com as memórias da violência ou para preparar novos territórios.

A Etnomusicologia Colaborativa é o principal assunto de Líliam Barros e Cristhian Teófilo da Silva, em seu artigo, ao abordar o campo interdisciplinar da etnomusicologia na região pan amazônica. Questionando a hegemonia da geopolítica do conhecimento, os autores tecem um estado da arte das pesquisas colaborativas no Brasil como um todo, para então focarem-se nos trabalhos realizados no território de sua escolha, e em seus resultados.
Um estado da arte da Etnomusicologia Aplicada e da utilização da metodologia da Pesquisa-Ação por etnomusicólogos no Brasil é, de maneira análoga, a proposta de Paulo Vinícius Amado, explorando, de um lado, a diversidade territorial abrangida pelas diferentes propostas, e, de outro, a convergência teórica observada entre seus proponentes.
Compreendendo o trabalho atual da Etnomusicologia como implicado nas dinâmicas da globalização, Vincenzo Cambria oferece uma reflexão teórica sobre o conceito de “cenas musicais”. Segundo o autor, o conceito fornece vantagens para sua utilização por etnomusicólogos (que, não obstante, não o vêm empregando, de acordo com Cambria), derivadas de sua maior flexibilidade, permitindo referir-se a uma dimensão socioespacial sem que sejam circunscritas a um território geográfico específico. Entretanto, o autor observa que, nos trabalhos de outras áreas que comenta, a noção de cena “estaria ainda vaga e ambígua demais para permitir que uma clara perspectiva teórica alternativa seja desenvolvida em torno dela”. Como forma de lidar com esta dificuldade, Cambria sugere que a dimensão da cidade, localizada, em termos de abrangência, entre o nível micro (a “comunidade”) e os níveis macro (os Estados- Nação ou os processos transnacionais “desterritorializados”) permitiria perceber, de forma mais concreta, o funcionamento de fluxos e conexões globalizantes em uma dimensão mais local.
Alvaro Neder volta-se para uma realidade que ainda não havia sido pesquisada: a região do atual Mato Grosso do Sul em sua contraditória relação com uma música urbana produzida aí desde os anos 1960, e denominada de “Música do Litoral Central”, ou MLC, a partir das conexões históricas, culturais e geográficas com a Bacia do Prata.
Indo na contramão da ideologia da segurança nacional, imposta pela ditadura militar, que entendia os países vizinhos como perigosos focos de subversão e guerrilhas, essa música, desde sua concepção, buscou inspiração nos gêneros musicais desses países hermanos – especialmente a guarânia e a polca paraguaias e o chamamé argentino. Tendo este e outros princípios contra-ideológicos em sua gênese, entretanto, a MLC terminou sofrendo acirrado processo de cooptação, à medida que as elites locais viram nessa música um poderoso símbolo identitário que justificasse suas pretensões – finalmente realizadas – de criar um novo estado federativo e se apoderar de sua máquina administrativa.
Brenda Suyanne Barbosa descreve e discute a música no ritual de batismo denominado Nhemongarai (Ritual do Milho) praticado pelos Mbya-Guarani, buscando compreender a existência de possíveis traços de música europeia e/ou midiática na cerimônia. Para a autora, apesar da presença de elementos de músicas midiáticas no cotidiano da cultura guarani, e da influência da música europeia no uso do violão e violino, e nas noções de introdução/ponte/coda, solo e coro, a música ritual dos Mbyá- Guarani consegue se manter infensa, devido à sua sacralidade.

Em nossa seção de resenhas, Alcides Lopes aborda a importante obra do antropólogo e etnomusicólogo Anthony Seeger, Por que cantam os Kĩsêdjê. Apesar de muito conhecida entre os etnomusicólogos em sua versão original, a tradução desse livro de referência é bastante bem-vinda, principalmente para apoiar nossos cursos de graduação em Etnomusicologia, sendo muito útil, também, para tornar mais próxima nossa área do público mais amplo.

Editores

Alvaro Neder
Spensy Kmitta Pimentel

 

 

Publicado: 02/09/2026

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