Marujadas e Cheganças na Bahia Transformando a ‘guerra’ numa festa de paz e liberdade

Autores

  • Katharina Doring Universidade do Estado da Bahia Autor

DOI:

https://doi.org/10.71199/xeh3ah23

Palavras-chave:

Marujadas, Festas, Tradições Transatlânticas Afro-Ibéricas, Bahia, Cheganças

Resumo

O presente artigo traz a apresentação, tanto histórica como contemporânea do movimento das Cheganças e Marujadas na Bahia, que não são exclusivas desse estado, porem, formam uma grande rede renovada em torno de 30 grupos, que hoje são reconhecidos como patrimônio imaterial da Bahia (IPAC), inclusive lutando pelo reconhecimento como patrimônio brasileiro pelo IPHAN. Há 25 anos sendo retratados por alguns documentários da TVE pelo projeto Bahia Singular e Plural, a maioria das Cheganças e Marujadas não se conhecia e muitas vezes estava a ponto de desistir, quando se iniciou um grande movimento a partir do trabalho do Marujo e pesquisador Rosildo Rosario de Saubara, onde nessa pequena localidade, já havia uma concentração de três cheganças, incluso a primeira chegança feminina do Brasil. Depois de uma excursão histórica sobre o fenômenos desses grupos, inspirados na narrativa da Nau Catarineta entre outros, o texto segue apresentando ca. vinte grupos baianos diversos, designados com Cheganças, Marujadas e Lutas de mouros e cristão desde do Norte da Bahia ate o extremo Sul. Termina com uma reflexão sobre o lugar obsoleto do pensamento folclorista e nacionalista, mostrando a diversidade complexa e a estrutura profunda das cheganças que em seus aspectos estéticos, poéticos, musicais e cênicos revelam fundamentos africanos, aliados a elementos históricas ibéricas e transatlânticas, sem buscar um lugar de pureza e origem única, na liberdade de se reinventar, revelando as diversas baianidades possíveis nesse grande estado.


This article presents preliminary research on the Cheganças and Marujadas movement in Bahia. While these groups are not unique to this state, they form a large, revitalized network of approximately 30 groups, recognized as part of Bahia’s intangible cultural heritage (IPAC). For the past 25 years, they have been featured in several TVE documentaries as part of the “Bahia Singular e Plural” project. Most of the Cheganças and Marujadas were unknown to one another and were often on the verge of giving up when a movement began, based on the research and leadership of Professor and Marujo Rosildo Rosário de Saubara in the Recôncavo region of Bahia; in this small municipality, there was already a concentration of three Marujada groups, including Brazil’s first all-female Chegança. After a historical tour in some Brazilian regions, exploring the characteristics, origins, and particularities of these groups—inspired, among other things, by the narrative of the Nau Catarineta—we present some of these specific groups from the Bahian territory, ranging from northern Bahia to the far south. Returning to the setting of Saubara, we learn about the Encontros das Cheganças, Marujadas, and Lutas de Mouros e Cristãos movement, which has taken place annually since 2013 in Saubara, where the Chegança de Marujos Fragata Brasileira managed to establish a Pontão de Cultura. Below are a few observations and reflections on the preliminary research into the acculturation process of these Luso-Moorish-Iberian festive traditions, which, depending on the Brazilian region, take on different characteristics and influences—including Indigenous and African ones: in the case of Bahia, and more specifically in the Recôncavo Baiano, Central African traits (Kubik, 2008) in the scenic and musical expressions. It concludes with a reflection on the transformation of festivals and celebrations rooted in oral tradition in the contemporary era, which are reinventing themselves in new formats created by communities and their leaders, revealing complex structures that embrace the diversity of their aesthetic, poetic, musical, and theatrical expressions, interwoven with the diverse “Baianidades” across its vast territory. 

Biografia do Autor

  • Katharina Doring, Universidade do Estado da Bahia

    Etnomusicóloga e Profa. adjunta da UNEB no campo das Artes, Cultura, História entre outros, pesquisadora do Samba de Roda do Recôncavo Baiano desde 2001, com vários projetos e publicações de pesquisa, extensão e produção cultural. Autora do livro “Cantador de Chula - Samba antigo do Recôncavo Baiano”' (Pinauna, 2016) e da “Cartilha do Samba Chula”' (Umbigada, 2026). Pesquisa na interface de Etnomusicologia; Educação Musical; Artes, História social da Cultura, Estudos culturais e decoloniais, com ênfase nas interfaces de músicas, danças, artes, performances e rituais afro-indígenas e populares; tradições cênico-poético-musicais de matriz africana; história e geografia cultural, memória regional e histórias de vida. Pesquisadora do grupo de pesquisa Núcleo de Tradições Orais e Patrimônio Imaterial (NUTOPIA) desde de 2008. Autora de vários artigos e capítulos em revistas e livros-coletâneas, voltado para o Samba de Roda, Musica da diáspora africana, música de tradição oral e patrimônio imaterial, entre outros. Coordenadora do Projeto e Grupo de pesquisa LAB Koringoma: '”Koringoma - Laboratório das memórias e práticas cênico-poético-musicais das culturas populares, negras e afro-indígenas na América Latina”, desde 2018. Coordenadora e autora nos e dos livros coletâneas ''Artes musicais africanas na Diáspora: corpos, vozes, ritmos e sonoridades em movimento”' (Dialetica, 2023) com M. Conrado; e “'Ritmos em trânsito: História, Música e Musicologia na Bahia Negra”' (CRV, 2025) com F. Mota e M. Santos.

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Publicado

12/31/2025

Edição

Seção

Dossiê – "Etnomusicologia da Festa: Encontros, Confluências e Celebrações"

Como Citar

Marujadas e Cheganças na Bahia Transformando a ‘guerra’ numa festa de paz e liberdade. (2025). Revista Música E Cultura, 14(1), 106-140. https://doi.org/10.71199/xeh3ah23