As Danças e Rodas de São Gonçalo, Quilombolas e Caiçaras e a Temporalidade Helicoidal: Uma teoria etnográfica músico-cosmológica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.71199/g7dbqg30

Palavras-chave:

São Gonçalo, Danças populares, Temporalidade Helicoidal, Comunidades Quilombolas, Comunidades Caiçaras

Resumo

Este ensaio deriva das Danças e Rodas de São Gonçalo entre comunidades quilombolas e caiçaras brasileiras uma teoria etnográfica da temporalidade helicoidal. Partindo de uma abordagem etnográfica e musicológica, o trabalho problematiza a origem histórica dessas festas, tradicionalmente associadas a Portugal, e propõe uma análise que considera a ancestralidade e as práticas culturais como constitutivas - no sentido forte do termo - da comunidade política dessas populações. Fundamenta-se em teorias sobre ritmo como aparato técnico (Foucault) e sobre temporalidades não-lineares (Martins, Mbiti), que reconhecem a circularidade, espiralidade e helicoidalidade do tempo vivido. A metodologia incluiu análise de fontes históricas, relatos etnográficos e entrevistas com mestres e participantes das rodas de São Gonçalo em Lagoa das Emas (PI) e Cananéia (SP). Os resultados evidenciam três marcadores helicoidais: (i) reinício com diferença, em que cada festa cria uma temporalidade própria vinculada a cosmo-lógicas ancestrais; (ii) acoplamento multi-escala, integrando ritmos naturais e sociais; (iii) reversibilidade de causalidades, em que origens e efeitos são performativamente constituídos no presente. Conclui-se que o movimento das danças, especialmente o das saias e corpos em roda, constitui uma forma de produção comunitária e política, em que o passado é continuamente presente e o tempo se experimenta como evento, não como linha linear. Assim, São Gonçalo atua como um agente cósmico mediador de uma temporalidade que se produz e é produzida pela vinculação comunitária.

 

This essay derives from the Dances and Circles of Saint Gonçalo among Brazilian maroon and caiçara communities an ethnographic theory of helicoidal temporality. Drawing on ethnographic and musicological approaches, the work problematizes the historical origin of these festivities, traditionally associated with Portugal, and proposes an analysis that considers ancestry and cultural practices as constitutive—in the strong sense of the term—of the political community of these populations. It is grounded in theories that conceive rhythm as a technical apparatus (Foucault, 1979) and in reflections on non-linear temporalities (Mbiti, 1969; Martins, 1997), which recognize the circular, spiral, and helicoidal dimensions of lived time. The methodology included the analysis of historical sources, ethnographic accounts, and interviews with masters and participants of the Saint Gonçalo circles in Lagoa das Emas (PI) and Cananéia (SP). The results highlight three helicoidal markers: (i) restart with difference, in which each festivity creates its own temporality linked to ancestral cosmo-logics; (ii) multi-scalar coupling, integrating natural and social rhythms; and (iii) reversibility of causalities, in which origins and effects are performatively constituted in the present. It is concluded that the movement of the dances—especially the swirling of skirts and bodies in the circle—constitutes a form of community and political production in which the past remains continuously present and time is experienced as an event rather than as a linear sequence. Thus, Saint Gonçalo operates as a cosmic agent mediating a temporality that is both produced by and productive of communal bonds.


Este ensayo deriva de las Danzas y Ruedas de San Gonçalo, entre comunidades quilombolas y caiçaras brasileñas, una teoría etnográfica de la temporalidad helicoidal. A partir de un enfoque etnográfico y musicológico, el trabajo problematiza el origen histórico de estas festividades, tradicionalmente asociadas a Portugal, y propone un análisis que considera la ancestralidad y las prácticas culturales como constitutivas —en el sentido fuerte del término— de la comunidad política de estas poblaciones. Se fundamenta en teorías que conciben el ritmo como aparato técnico (Foucault, 1979) y en reflexiones sobre temporalidades no lineales (Mbiti, 1969; Martins, 1997), que reconocen la circularidad, la espiralidad y la helicoidalidad del tiempo vivido. La metodología incluyó el análisis de fuentes históricas, relatos etnográficos y entrevistas con maestros y participantes de las ruedas de San Gonçalo en Lagoa das Emas (PI) y Cananéia (SP). Los resultados evidencian tres marcadores helicoidales: (i) reinicio con diferencia, en que cada fiesta crea una temporalidad propia vinculada a cosmo-lógicas ancestrales; (ii) acoplamiento multi-escala, integrando ritmos naturales y sociales; y (iii) reversibilidad de causalidades, donde los orígenes y efectos se constituyen performativamente en el presente. Se concluye que el movimiento de las danzas —especialmente el de las faldas y los cuerpos en rueda— constituye una forma de producción comunitaria y política, en la cual el pasado está continuamente presente y el tiempo se experimenta como evento, no como línea lineal. Así, San Gonçalo actúa como un agente cósmico mediador de una temporalidad que se produce y es producida por el vínculo comunitario.

 

Biografia do Autor

  • Gabriel Bertolo, PPGANT/UFPI

    Antropólogo, poeta, músico, escritor e tradutor. Etnógrafo voltado para culturas populares e tradicionais (comunidades quilombolas, caiçaras e indígenas), com pesquisas direcionadas à musicologia, territorialidade e patrimônio imaterial. Coordenador de projetos de arte e cultura, também atua como consultor em escrita criativa e acadêmica e analista de responsabilidade social. Atualmente, é pesquisador de pós-doutorado (bolsista - PRAPG/CAPES) no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Piauí, com pesquisa focada no samba de roda e outras manifestações culturais de povos originários e de terreiro no Piauí. Tem como principais temas de interesse a teoria antropológica, antropologia política e antropologia das relações étnico-raciais, lecionando na graduação e na pós-graduação, nos departamentos de ciências sociais, antropologia e ciência política.

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Publicado

12/31/2025

Edição

Seção

Dossiê – "Etnomusicologia da Festa: Encontros, Confluências e Celebrações"

Como Citar

As Danças e Rodas de São Gonçalo, Quilombolas e Caiçaras e a Temporalidade Helicoidal: Uma teoria etnográfica músico-cosmológica. (2025). Revista Música E Cultura, 14(1), 58-89. https://doi.org/10.71199/g7dbqg30