O palco como cartaz: Entre espetáculo e participação no Festival do Folclore de Olímpia
DOI:
https://doi.org/10.71199/w6jne458Palavras-chave:
Espetacularização, Comunidades de prática, Performance participativa, Cultura popular, Festival do Folclore de OlímpiaResumo
Este artigo analisa o Festival do Folclore de Olímpia (FEFOL) a partir das tensões entre lógica espetacular e participação comunitária que configuram suas práticas performáticas. Embora o festival opere sob dispositivos típicos do espetáculo, como palcos profissionais, cronometragem das apresentações e formatos orientados ao consumo turístico, argumenta-se que as manifestações populares ali exibidas preservam dinâmicas próprias de aprendizagem, sociabilidade e pertencimento. Com base nos conceitos de comunidades de prática (Wenger, 2008), performance participativa (Turino, 1998) e musicar (Small, 1998), evidencia-se que os grupos mobilizam saberes e vínculos que ultrapassam o evento. O FEFOL constitui, assim, um novo contexto de performance, no qual rituais tradicionalmente situados em territórios específicos são condensados e reorganizados para a cena pública. No entanto, em ensaios abertos, encontros musicais espontâneos, convivências em alojamentos e trocas entre grupos, emergem zonas de participação ampliada que reativam lógicas comunitárias. A metáfora do “palco como cartaz” permite compreender o festival como dispositivo de visibilidade que projeta culturas populares a públicos heterogêneos sem suprimir suas dinâmicas internas. Espetáculo e participação coexistem, portanto, em tensão produtiva, configurando o festival como arena híbrida na qual tradição, mediação institucional e reinvenção contemporânea se entrelaçam.
This article analyzes the Festival do Folclore de Olímpia (FEFOL) through the tensions between spectacle and community participation that structure its performative practices. Although the event operates under a spectacular logic-marked by professional stages, timed presentations, and tourism-oriented formats, it is argued that the popular manifestations presented there maintain dynamics of learning, sociability, and belonging that extend beyond the festival. Drawing on the concepts of communities of practice (Wenger, 2008), participatory performance (Turino, 1998), and musicking (Small, 1998), the study demonstrates that FEFOL functions as a new context of performance in which rituals originally tied to specific territories are condensed and reorganized for the public stage. Outside formal presentations, however, open rehearsals, spontaneous musical gatherings, daily interactions in lodging spaces, and intergroup exchanges create expanded zones of participation that reactivate community logics. The metaphor of the “stage as poster” clarifies how the festival serves as a visibility device, projecting popular cultures to heterogeneous audiences while preserving internal logics. Thus, spectacle and participation coexist in productive tension, making the festival a hybrid arena in which tradition, institutional mediation, and contemporary reinvention intertwine.
Referências
APPADURAI, Arjun. The production of locality. In: Modernity at large: cultural dimensions of globalization. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.
BAUMAN, Richard. Verbal art as performance. Illinois: Waveland Press, 1971.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CAETANO POPOFF, Marcela Liliana. As perversões ficcionais da representação: De Vaimaca Peru a Antonio Conselheiro. 2009. 233 f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009.
CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4. ed. São Paulo: EDUSP, 2010.
CARVALHO, José Jorge de. A espetacularização das tradições culturais. In: VÁRIOS AUTORES. Folclore e cultura popular no Brasil. Brasília: Ministério da Cultura, 2004.
CARVALHO, José Jorge de. Espetacularização e canibalização das tradições afro-brasileiras. Brasília: UnB, 2010.
CARVALHO, José Jorge de. A condição do silêncio: a subalternidade na cultura brasileira. Revista de Antropologia, v. 42, n. 2, 1999.
CARVALHO, José Jorge de. Metamorfoses das tradições performáticas afro-brasileiras: de patrimônio cultural a indústria de entretenimento. In: Celebrações e saberes da cultura popular. Rio de Janeiro: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/IPHAN, Série Encontros e Estudos, 2004. p. 65-83.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O mundo do folclore. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
BEN-AMOS, Dan. Hacia uma definicion de folclore em contexto. (1971). In: BLACHE. M. Narrativa folclórica (II). Buenos Aires: FADA. 1995.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FINNEGAN, Ruth. The hidden musicians: making music in an English town. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
FONSECA, Edilberto. A invenção do Brasil e a construção da identidade nacional. São Paulo: Cortez, 2009.
GIESBRECHT, Melissa; REILY, Suzel Ana. Comunidades de prática e musicalização popular. In: VÁRIOS AUTORES. Música e comunidade. São Paulo: Annablume, 2012.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 1959.
KIRSHENBLATT-GIMBLETT, Barbara. Destination culture: tourism, museums, and heritage. Berkeley: University of California Press, 1998.
MACALOON, John J. Olympic Games and the theory of spectacle. In: MACALOON, John J. (Org.). Rite, drama, festival, spectacle. Philadelphia: Institute for the Study of Human Issues, 1984.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
POPOFF, Marcela Caetano. Subalternidade e cultura popular: perspectivas críticas. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
REILY, Suzel Ana. Folclore e nacionalismo: música caipira e identidade cultural. Campinas: UNICAMP, 1990.
REILY, Suzel Ana. Música, identidade e espetacularização. Revista de Antropologia, v. 43, n. 2, 2000.
REILY, Suzel Ana. Folclore no século XX: debates e perspectivas. In: VÁRIOS AUTORES. Cultura popular em trânsito. São Paulo: EDUSP, 2002.
REILY, Suzel Ana. Musical traditions in Brazil. New York: Routledge, 2015.
REILY, Suzel Ana. Não há música sem dimensão política: conversa com Suzel Reily sobre música, etnomusicologia e cultura popular brasileira. Entrevista a Érica Giesbrecht e Carla Delgado de Souza. Proa, v. 4, n. 1, 2014.
REILY, Suzel Ana. Folk music, art music, popular music: what do these categories mean today? [S.l.], 2000.
REILY, Suzel Ana. Manifestações populares: do “aproveitamento” à reapropriação. In: REILY, S. A.; DOULA, S. M. (Org.). Do folclore à cultura popular. Anais do Encontro de Pesquisadores nas Ciências Sociais. São Paulo: FFLCH/USP, 1990. p. 1–31.
REILY, Suzel Ana; BRUCHER, Katherine. Brass bands of the world: militarism, colonial legacies and local music making. Burlington: Ashgate, 2013.
SÃO PAULO (Estado). Decreto nº 43.310, de 11 de julho de 1967. Institui o mês de agosto como “Mês do Folclore” no Estado de São Paulo. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 12 jul. 1967.
SCHECHNER, Richard. Performance studies: an introduction. 2. ed. New York: Routledge, 2006.
SMALL, Christopher. Musicking: the meanings of performing and listening. Hanover: Wesleyan University Press, 1998.
TAYLOR, Diana. The archive and the repertoire: performing cultural memory in the Americas. Durham: Duke University Press, 2003.
TONICO; BIBI; JOSÉ, Nilton. Olímpia Menina Moça. Intérpretes: TONICO e TINOCO. In: TINOCO 32 anos. São Paulo: Continental, 1974. 1 disco sonoro. Lado B, faixa 6.
TURINO, Thomas. Signs of imagination, identity, and experience. Ethnomusicology, v. 42, n. 2, 1998.
TURINO, Thomas. Music as social life: the politics of participation. Chicago: University of Chicago Press, 2008.
TURNER, Victor. The anthropology of performance. New York: PAJ Publications, 1987.
WENGER, Etienne. Communities of practice: learning, meaning, and identity. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
WENGER, Etienne. Cultivating communities of practice. Cambridge: Harvard Business School Press, 2012.
WENGER, Etienne. Communities of practice and social learning systems: the career of a concept. 2021. Disponível em: https://www.wenger-trayner.com/introduction-to-communities-of-practice/. Acesso em: 12 dez. 2025.
ZUÍTA, Cristina. Entrevista concedida ao autor. Olímpia-SP, [s.d.]. Não publicada.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Revista Música e Cultura

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
