v. 13 n. 01 (2024): Revista Musica e Cultura- 2024/01
Se no volume anterior da revista Música e Cultura (Vol. 12, 2021) estávamos ainda tomados pelas situações dramáticas impostas pela pandemia de COVID-19, este presente número é lançado em um momento pós-pandêmico, onde passamos a experienciar uma série de reconfigurações e rearticulações de nossos campos de trabalho e de atuações. Frente a isso, entendemos que esta nova edição da revista marca um período de reafirmação e continuidade deste importante periódico da Etnomusicologia Brasileira, sendo publicado em um momento histórico para a Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET), em que a Gestão Afirmativa, a primeira em mais de 20 anos de história da nossa associação que é formada em sua maioria por pessoas negras, entrega mais um fruto de seu esforço coletivo, seguindo os aprendizados e as lutas de uma linhagem etnomusicológica que valoriza a produção de conhecimento negra, dos povos originários e de outros grupos populares/periféricos, na esteira de suas ancestralidades e de seus movimentos político sociais/educacionais.
Embargados por sentimentos semelhantes que nos tomaram conta ao longo de todo o XI Encontro Nacional da ABET, realizado em novembro de 2023, com mistos de alegria e de superação de muitos desafios, preconceitos e barreiras, apresentamos, então, em janeiro de 2024, o Vol. 13, N.o 1 da revista Música e Cultura, composto por um apanhado bastante heterogêneo de seis artigos e um ensaio, sendo que dois desses artigos valorizam as produções de pensadores/as negros/as e o ensaio traz contribuições substanciais para as reflexões envolvendo Música e a Comunidade LGBTQIAPN+, além de contribuições que valorizam personalidades e comunidades musicais até então “esquecidas” pela historiografia musical e por outras etnografias, aspecto este que acreditamos assinalar, mais uma vez, a importância deste periódico brasileiro, além da multiplicidade de trabalhos que vêm sendo produzidos pela Etnomusicologia, não apenas em território nacional, mas também em outras partes do mundo.
Visando uma organização cronológica das presentes contribuições, esta edição abre com o artigo O Maestro Pompeu e a História Cultural da Música no Sul de Minas Gerais: fontes, compositores, músicos e professores entre os séculos XVIII e XX, em que José Humberto Barbosa, Mirella Veiga e Samuel Barbosa Junior, desde uma perspectiva dos acervos musicológicos e dos estudos biográficos, alinhada à proposta de “etnomusicologia como representação social da significação musical”, evidenciam a trajetória do educador Maestro Pompeu no contexto do sul do estado brasileiro de Minas Gerais. Na sequência, Marília Santos, em Música Armorial: história, arte e ecos, investiga, com uma proposta etnográfica, as reverberações de um fazer musical armorial na contemporaneidade.
Ao mapear as referencialidades presentes naquilo que a autora nomeia como “campo armorial”, situa no centro de sua investigação a peça musical Um Requiem Nordestino, do compositor Dierson Torres. No artigo Etnomusicologia Afroperspectivista no Sarau Divergente, Jhenifer Raul, Juliana Lima, Lucas Assis, Matheus Ferreira, Pedro Mendonça, Priscilla Donato, Raphaela Yves e Renan Moutinho (coletivo cujos participantes integram os grupos de pesquisa Ivone Lara e Musicalidades da Diáspora Africana, ambos em atuação na cidade do Rio de Janeiro) analisam, a partir de uma agenda político-epistemológica afroperspectivista, o evento Sarau Divergente, aprofundando em suas discussões temas como epistemicídio, quilombismo e musicalidades afro-diaspóricas.
Na sequência, Danilo Kuhn Silva também coloca em discussão a temática dos epistemicídios no campo da música em Epistemicídio Musical Pomerano na Serra dos Tapes, propondo uma análise em torno do que o autor situa como processo de invisibilização de uma música tradicional pomerana em um contexto de imigração no sul do estado do Rio Grande do Sul.
Em Carnaval Carioca e Práxis-Sonora: o batuque enquanto um fazer político afro-brasileiro, Thiago de Souza Borges discute o carnaval na cidade do Rio de Janeiro a partir das perspectivas de pensadores/as negros/as e retoma os debates em torno destes eventos enquanto lugares de disputas. Flávio Rodrigues, em A Prática Virtual do Taiko: comunidades e seus musicares em tempos de pandemia, investiga as performances em ambientes virtuais desta expressiva prática musical japonesa ao focalizar um grupo musical localizado na cidade de Atibaia (SP). Caio Mourão fecha este número com o ensaio “Ai Quanto do Teu Sal...”: as lágrimas contracolonizadores de Fado Bicha e Portugal, apresentando questões em torno de práticas musicais contracolonizadoras ao analisar uma canção que tematiza e dialoga com grupos e comunidades discriminadas no contexto de Portugal.
Agradecemos a todxs xs autorxs que tornaram possível a realização deste número e esperamos que ele contribua com o fortalecimento e a ampliação da Etnomusicologia Brasileira.
Os editores,
Rafael Branquinho Abdala Norberto (Editor)
Daniel Stringini da Rosa (Vice-Editor)
